O Arroz de Casca

terça-feira, outubro 14, 2008

Elogio ao Amor


Fui a um casamento com vista para a linda planície alentejana - aquela onde os meus olhos podem descansar. O mestre de cerimónias foi um texto do extraordinário Miguel Esteves Cardoso. Concorde-se com ele (texto) - uns dias mais e outros menos - vale sempre a pena lê-lo. Uma pausa para pensar sobre isto ou apenas para sentir a obra, a vida ou o amor:

ELOGIO AO AMOR 

Miguel Esteves Cardoso

Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.

Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.


Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".
O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.

A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona?


Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

 

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

 

O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira.

 

E valê-la também. 

5 Comments:

  • (logo que falas em casamento lembro-me do teu drama com os sapatos e com os pézitos!!!lolololol)
    O texto é muito giro, sim, e gosto muito do Esteves Cardoso...acho-o muito acutilante e com um sentido de humor fantástico...talvez diga aquilo que não queremos ou não gostamos de ouvir muitas das vezes...
    :)

    By Blogger IM, at 10:48 da tarde  

  • Inevitavelmente o drama dos pezinhos voltou a acontecer, claro está! Haverá alguma coisa que explique o facto de haver criaturas que não se adaptem a praticamente nenhuns sapatos? Ainda por cima, pela lógica do fruto proibido, é claro que adoro sapatos! ;))

    O MEC escreve como ninguém. Para mim é o exemplo de alguém que nasceu para escrever e que, em Portugal, foi pioneiro de determinado género de escrita. Abriu portas a muita coisa.

    O texto...pois...acho que tocaste no ponto. É aquilo que sabemos ser assim, mas que, no dia- a- dia, não queremos ver. E vamos mantendo relações cheias de racionalidade... sem pensarmos muitas vezes na falta que nos faz viver esse "amor estúpido".
    Neste caso acho que é a vida (que nos habituámos a pôr à frente de tudo) que não nos deixa viver aquele amor. Só que nós, "bananóides e tomadores de bicas", deixamos isso aconteça.

    By Blogger g., at 12:50 da manhã  

  • É, é isso mesmo...tudo o que disseste e o MEC é fantástico...a acuidade...a perspicácia...a forma simples e bem humorada com que fala de coisas sérias e até tristes, vergonhosas...como ninguém ele caracteriza bem o povinho português!...

    By Blogger IM, at 6:48 da tarde  

  • que bom que depois de dois meses e meio voltaste À escrita!
    O texto do Miguel Esteves Cardoso é fantástico... como qualquer texto que nos faça reflectir... e acabo como também ele próprio diz, sobre o amor... "quem ama sem ser correspondido é porque não ama verdadeiramente"
    E o amor (o verdadeiro) faz-nos tanta falta!

    Um abraço carinhoso

    By Blogger carinhosa, at 1:06 da tarde  

  • Faz falta e é raro. :)

    Outro abraço. Obrigada por apareceres.

    By Blogger g., at 3:30 da manhã  

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